Faz parte da rotina do cardiologista ser convocado a realizar a avaliação do risco cirúrgico em pacientes submetidos a cirurgias cardíacas e não-cardíacas.Com o aumento da expectativa de vida e maior acesso a tecnologia, é cada vez mais frequente nos deparamos com pacientes portadores de DCEI que serão submetidos a cirurgia.

Nesse cenário, a grande preocupação que se tem é a possibilidade de haver interação entre o bisturi elétrico e/ou outros dispositivos presentes na sala cirúrgica.

Sendo assim, que cuidados devemos ter em relação aos cuidados peri-operatórios do doente portador de DCEI ?

1) O primeiro passo é saber qual tipo de dispositivo – MP, CDI ou ressincronizador, e suas respectivas combinações, e em qual loja ele está implantado. Para isso, a carteirinha do paciente com identificação da marca e a cicatriz cirúrgica associada a palpação conseguem resolver na maioria das vezes. Além disso, a solicitação de uma radiografia de tórax ( ou de qualquer outra porção onde possa estar localizada a loja do gerador) é importante. Isso parece óbvio, mas é fundamental que documente-se o trajeto dos cabos eletrodos e o real posicionamento do gerador para evitar iatrogenias e danos a esse sistema, sobretudo em cirurgias envolvendo a região torácica.

2) Descubra o quanto tempo faz da última manipulação do aparelho, seja essa a data do implante ou da troca do gerador.

Para dispositivos implantados há menos de 60 dias recomenda-se postergar as cirurgias eletivas pelo risco, sobretudo infeccioso, ao aparelho.

Para dispositivos próximos do fim de vida ou com alguma disfunção de eletrodo requerendo troca recomenda-se que a troca de gerador e/ou sistemas de cabo eletrodo seja feito antes da cirurgia haja vista que o aparelho poderá, eventualmente, sofrer alguma disfunção em vigência do stress cirúrgico.

Para aparelhos dentro da sua vida útil deve ser feita uma avaliação junto ao arritmologista e ser entregue ao paciente os dados de bateria e funcionamento dos cabos-eletrodos.

Estando tudo certo, no ato cirúrgico recomenda-se:

– Realização de antibioticoprofilaxia contra endocardite ( apesar de essa prática não ser consenso entre diversas sociedades médicas ).

– Monitorização eletrocardiográfica contínua e oximetria de pulso para conferir na onda do oximetro a correlação entre atividade elétrica e pulso anatômico.

– Uso de bisturi bipolar sempre que possível. Na impossibilidade, coloque o eletrodo dispersor o mais longe da loja onde encontra-se o gerador e prepare bem a pele retirando as oleosidades através do uso de álcool. De preferencia, esse local , além de o mais distante possível do gerador, deve ser próximo do campo cirúrgico em si, para diminuir a corrente.

–  Garantir o bom aterramento do fio-terra.

– Ter, por escrito, qual a programação do marcapasso do último ajuste. Alguns já deixam ajustados em modo assíncrono, no sentido de diminuir a preocupação em relação a interferências. Caso não estejam assíncronos, a colocação de um imã sobre a loja do gerador deixa, na maioria dos casos, o marcapasso em modo assíncrono e poderá ser uma atitude a ser tomada no caso de cirurgias de emergência.

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No caso especifico de paciente portador de CDI recomendam-se alguns cuidados a mais:

– Sempre que possível, a presença do especialista  em sala cirúrgica

– A desabilitar a função de ATP e Choque.

– Cardiodesfibrilador funcionante e pronto para uso.

Leitura sugerida:
Sant’anna JRM. Paciente portador de Marca-passo em cirurgia geral. Disponível aqui
II Diretrizes Brasileiras de Perioperatório da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2011.  Disponível aqui

Sobre o Autor

Daniel Valente

Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Médico com residência médica em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e em Cardiologia Clínica pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HC-FMUSP). Instrutor ativo do curso de ACLS pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (sede SP) e pesquisador colaborador junto ao grupo MASS.

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