Cardiologia Geral Desafio de ECG

Bloqueio divisional anterossuperior durante teste ergométrico

Paciente do sexo masculino, de 50 anos, sem comorbidades, com angina atípica aos grandes esforços, realiza teste ergométrico, evidenciado abaixo:

ECG de repouso

 

ECG durante o 6º minuto de esforço

 

O teste ergométrico em questão traz uma alteração rara, porém bastante comentada em discussões de ergometria. Durante o exercício físico, observamos mudança abrupta do eixo do QRS, com desvio para a esquerda, com padrão rS em DII, DIII e aVF, sendo a onda S de DIII>DII, além do surgimento de ondas S profundas em V4 a V6. Podemos notar também que a frequência cardíaca e a duração do QRS não se alteram no momento em que surge a alteração descrita.

Com isso, podemos definir a presença de um bloqueio divisional anterossuperior esquerdo (BDASE) intra-esforço.

Mas e aí, isso traz alguma informação prognóstica ao paciente?

O surgimento do BDASE durante o esforço é um clássico fator de mau prognóstico durante o teste ergométrico. Estudos antigos, embora com número limitado de pacientes, chegaram a demonstrar especificidade de até 99% para lesão proximal de descendente anterior quando encontrado desvio do eixo para a esquerda acima de 30 graus durante o esforço, apesar de uma baixa sensibilidade (cerca de 24%).

O diagnóstico diferencial deve ser feito principalmente com posição incorreta de eletrodos, sobrecarga de ventrículo direito, pré-excitação ventricular com vias acessórias posteriores e cardiomiopatia hipertrófica, temas que serão discutidos mais a fundo posteriormente.

Leitura sugerida:

Uchida AH, Moffa PJ, Riera AR, Ferreira BM. Exercise‐induced left septal fascicular block: an expression of severe myocardial ischemia. Indian Pacing Electrophysiol J. 2006;6:135‐138.

Kodama K, Hamada M, Hiwada K. Transient leftward QRS axis shift during treadmill exercise testing or percutaneous transluminal coronary angioplasty is a highly specific marker of proximal left anterior descending coronary artery disease. Am J Cardiol. 1997;79:1530–1534.

 

 

 

Sobre o Autor

Bernardo Rosário

Médico com residência médica em Clínica Médica pela Universidade Federal do Paraná e em Cardiologia Clínica pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HC-FMUSP).

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