Medicina perioperatória Para pacientes

Medicina perioperatória: o que o cirurgião necessita dizer ao cardiologista?

Fonte: https://pixabay.com/pt/ponto-de-interroga%C3%A7%C3%A3o-1107276/

É muito comum recebermos dos colegas cirurgiões e cirurgiões-dentistas pedidos para que façamos a avaliação peri-operatória de pacientes, sobretudo daqueles que tem alguma co-morbidade cardiovascular.

Para uma correta avaliação é importante que nos seja dito alguns dados chave que somente o cirurgião dispõem.
Objetivo desse texto é alertar quais são os dados imprescindíveis para uma completa avaliação clínica pré-procedimento e esclarecer que, apesar de recebermos muitos encaminhamentos solicitando para que nós, cardiologistas, ‘liberemos’ o doente para cirurgia essa não é a missão de nossa consulta. Não somos nós que temos de liberar o doente para cirurgia.
Os objetivos de nossa consulta são basicamente 2:

1) Avaliar as condições clínicas do doente e o controle de suas co-morbidades
2) Analiar os riscos inerentes ao próprio procedimento e, a partir disso, elaborar as nossas recomendações a respeito dos cuidados a serem seguidos no período pré, intra e pós-operatório para que esses riscos sejam minimizados!

Eventualmente, poderemos sugerir que determinada cirurgia seja postergada por alguma situação clínica especifica, mas a decisão final cabe ao médico que indica o procedimento juntamente com o paciente/família e pesando a análise da avaliação perioperatória.  Afinal, é o cirurgião que detém melhor conhecimento a respeito da real necessidade e velocidade para se realizar o procedimento.

Sendo assim é importante que nos seja dito na guia de encaminhamento alguns dados fundamentais para melhor aproveitamento da nossa consulta e, consequentemente, melhores sugestões de cuidado!
1) Data prevista para cirurgia?
Saber a data e dia da semana é imprescindível. Cirurgias de maior porte em pacientes de alto risco cardiovascular devem ser, preferencialmente, realizadas no início da semana, haja vista que, em períodos de recessos/feriados, pode ser mais difícil de que se consiga algum recurso ( p.e. um exame de radiologia intervencionista, um colega cirurgião de outra especialidade, etc) relacionado ao ato operatório.  
Um paciente renal crônico dialítico deve ter sua cirurgia agendada sempre para o dia seguinte após a realização da sua sessão de hemodiálise, quando estará com a sua volemia mais próximo do ideal.
2) Qual estabelecimento de saúde designado para o procedimento e qual infraestrutura disponibilizada (UTI pós cirúrgica, presença de laboratório de hemodinâmica, retaguarda cirurgia cardíaca,etc )?

Os Hospitais tem muita heterogeneidade de infra-estrutura. Nem todo estabelecimento de saúde pode realizar todo tipo de cirurgia e isso não deve ser negligenciado! Por exemplo, pacientes de alto risco cardiovascular que serão submetidos a cirurgia de grande porte, tem maior risco de infarto peri-procedimento e, eventualmente, podem necessitar de um cateterismo de urgência. Sendo assim, preferencialmente devem ter sua cirurgia realizada em centro médico onde esse serviço seja disponível, evitando, assim, os riscos e custos de um transferência inter-hospitalar.
3) Qual procedimento proposto?
Saber de maneira precisa qual tipo de cirurgia faz com que calculemos o risco intrínseco desse procedimento e nos ajude a jogar na balança do ‘risco do procedimento + risco intrínseco do doente’ e quais intervenções necessárias para minimizá-los. Avaliar um cardiopata que será submetido a uma colecistectomia por vídeo é bem diferente de um que fará uma correção de aneurisma de aorta abdominal.

Além disso, a depender do procedimento algumas recomendações, como profilaxia de embolismo venoso, podem ser diferentes tanto no tipo – farmacológica ou mecânica – quanto no tempo total pós cirúrgica.

4) A cirurgia em questão tem fins oncológicos curativos?


Saber se a proposta é curativa ou não é um dado importante para que possamos avaliar por quanto tempo a profilaxia de embolismo venoso deverá ser mantida nesse paciente.

5) Qual a duração estimada do ato operatório?


O tempo estimado do procedimento nos auxiliar a estimar o risco intrínseco do procedimento e auxilia o manejo do paciente no intraoperatório pelo colega anestesista.
6) Qual o tipo de anestesia programada ( geral, regional, mista ?)


Isso irá influenciar em aspectos anestésicos para pesquisa de possível via aérea difícil, avaliação da área de coluna vertebral antevendo alguma dificuldade para raquianestesia, etc. Além de nos auxiliar no manejo de algumas medicações, como oa anticoagulantes e os  antiagregantes/antiplaquetários.

Faça o download do PDF com a guia de solicitação de avaliação perioperatória aqui.

PS: Observe que aqui estão elencados apenas dados que somente o cirurgião responsável poderá explicitar ao cardiologista. Muitos outros dados ainda precisam ser coletados – p.e. medicações de uso, co-morbidades clínicas, se paciente fuma, uso de ilícitos, exames complementares, etc – mas isso deve ser feito durante a consulta peri-operatória e pelo próprio cardiologista.

Sobre o Autor

Daniel Valente

Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Médico com residência médica em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e em Cardiologia Clínica pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-HC-FMUSP). Instrutor ativo do curso de ACLS pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (sede SP) e pesquisador colaborador junto ao grupo MASS.

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